A transição é a divina perfeição

Tem tanto que quero escrever sobre os últimos dias. A viagem, a estrada e todos os pensamentos que estes me trouxeram.
Somos pequenos como as formigas, porém estamos em menor número. Mas assim como elas, usamos estradas para ligar as nossas cidades.

Tem tanto ao nosso redor que nem imaginar conseguimos. As estradas nos ligam e nos ajudam a ampliar as ligações neurais em nosso cerébro, expandimos nossa construção mental enquanto rodamos sob o asfalto colocado pelo homem.
Cruzamos bodes, gatos, cães, burros, cavalos e lagartos. Passamos por buracos que são como crateras no solo lunar em um espaço aqui da terra que dividimos com pedestres, bicicletas, caminhões, carros e ônibus. Cada um deles com um tato diferente. Uns pisam macio, outros empurram. São Pretos, brancos, verdes, vermelhos, azuis. 4×4, V8, com 25 metros, de vários eixos. Toda etnia automobilística a se misturar e interagir. Piscam, buzinam e aumentam a rotação.

Sobem o giro e vencem a montanha que logo se transforma em morro verde e vivo, é a mata que sustenta o rio, que se apresenta cristalino e passageiro vai embora. 

O rio flui por aí e dá lugar ao sol que aquece a terra do que agora já se mostra uma planície sem fim, com cercas de tronco de árvores fincados no chão quente e vermelho que o sustenta. Sustenta as cercas e também acolhe cactos gigantescos, palmas e árvores, acolhe também os animais e insetos que existem neste nosso breve redor. Entre eles, as borboletas verde florescentes que atravessam a grande faixa de asfalto. Borboletas verde flosforescentes, que se tornam amarelas e depois vermelhas. Transformam-se a medida que avançamos, assim como se transforma a vegetação, as pessoas, cidades e carros.

A mudança é lenta, quase imperceptível as vezes. Mas também é continua, bela é necessária. A transição é a divina perfeição. Junto a ela participamos da grande orquestra da vida, nos recriando a cada Km rodado, metamorfoseando-nos a soma de todo o antes que resulta no mais absoluto agora.

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A breve jornada em SP

Hoje sai de casa até o centro da cidade para comprar umas coisas.
É sempre uma jornada.
Mas nunca minha rotina.
Não me permito ter longas rotinas, principalmente em uma cidade como São Paulo.
É para meu próprio bem.
Para minha saúde.
A primeira música do aleatório é do Paralamas.
Bonita, emocional e perfeita para o tom da cidade.
Ela me acompanha até o ponto de ônibus e me faz reparar no olhar desanimado das pessoas que esperam chegar sua condução.
Entro na lotação.
Suja, barulhenta e ameaçando desmontar em mil pedaços a qualquer segundo.
Assim ela parece ser, assim ela é guiada.
Dou boa tarde ao motorista e recebo a resposta com o devido delay de espanto embutido.
Agimos de forma tão automática e quebrar isso se torna estranho.
Mesmo com um simples boa tarde.

Hari Bol. Namastê, senhor motorista.
Escolho meu lugar, peço licença a moça que está ao lado e me sento.
Dali até o metrô são uns 30 minutos, que com música e leitura boa fica fácil.
Mas nem todos ali tem esses costumes, na verdade só vejo meu livro por ali.
Como é bom amar Ler.
Mas e quem não conhece os universos aos quais as palavras podem nos levar?
Os funerais do Coelho Branco poderiam ter sido mais suaves para seu autor,
mas se fossem, não teriam sido funerais.
Os poemas de Nene Altro me inspiram a tanto tempo.
Quando chegar em casa vou escrever algo no estilo dele.
Talvez conte o dia de hoje.
Vou contar o dia de hoje.
Se ficar chato não tem problema.
De eu pra eu mesmo.

O metrô é a parte da cidade onde mais me sinto em um formigueiro.
Todos correm.
Cada um tem sua meta e se você parar no caminho, é atropelado.
Com a estrutura daqui dá para ver os andares abaixo e também os de cima.
Pessoas e mais pessoas seguindo rápido pelos corredores, e dos corredores até as portas.
Mal esperam quem está dentro sair, e já entram empurrando tudo e todos.
A ânsia para arrumar um lugar perfeito no vagão.
Tenho meu skate aos pés e ele como bom companheiro me ajuda a não ser esmagado.
Como é bom amar o Skate.
Mas e quem não tem algo assim que ensina, leva e guia?
Vejo a pressa e o desespero para chegar.
Apesar da pressa ninguém parecer estar empolgado com seu destino final.
Dá para ver em seus olhares.
Olhares raros de se pegar.
Que se desviam rapidamente.
Para baixo.
Para as telas dos celulares.
Aos seus universos irreais.
Melhor o brilho da tela.
Melhor a surrealidade do mundo virtual.
Do que aquele lugar apertado e cheio de pessoas tristes.
Grande irmão, você poderia pelo menos assumir que existe.
Mostrar sua cara.
Covarde.

Uma mulher entra com uma criança no colo.
A criança é a primeira que responde ao meu olhar,
e responde com um sorriso. Cheio. Gostoso.
Ei doce menina, leve consigo essa pureza.
A vida não é esse metrô desumano.
Pode tocar o cabelo da moça a frente.
Todos gostam de carinho.
Aliás, é do que todos aqui precisam.
Na porta do metrô o milagre acontece, uma banda de rua se prepara para tocar.
Na volta vou prestigiar esses senhorzinhos bacanas.
De skate fica fácil me locomover entre as pessoas.
O asfalto e as calçadas são tão podres quanto o metrô e a lotação que acabei de viver.
As ruas são sujas e me pergunto por quê.
Isso me pergunto desde pequeno, nunca fez sentido.
Vim comprar um frasco de tinta sublimática para as camisetas que faço em casa,
o preço subiu.
O vendedor disse que o reajuste foi no dia do trabalho.

Legal.
Compro mais umas coisas e todas elas estão mais caras, gasto o dobro do que pretendia.
As calçadas também estão mais gastas.
O preço sobe, mas a cidade só se gasta.
Definitivamente não é a mesma SP de 2008.
Nem a de 2005.
Muito menos a da minha infância nos anos 90.
Agora quem canta ao meu ouvido é o Skatista Alado.
Eu vejo na TV o que eles falam sobre os jovens não é sério.
NÃO É SÉRIO.
Estou de volta e a banda já está tocando.
Com licença Chorão, tiro os fones do ouvido e me aproximo.
Coloco uns trocados no chapéu e assisto ao show.
Enquanto todos correm. São 5 da tarde.

É hora de correr.
Corra para não pegar o vagão super lotado, corra para chegar a tempo de assistir a novela,
corra para não ser o último a chegar, corra para descansar mais tempo e ter mais energia para correr amanhã.
E enquanto todos correm, eu vejo a banda tocar.
Eu viro a banda tocando.
Eu me torno a música em plena estação Bresser – Mooca.
Me torno parte do chão cinza e das paredes encardidas.
Entro em união com aqueles senhores e seus Trompetes, Trombones, Sax e Bumbo.
Penso em quem não conhece a música e o poder de vibrar na frequência de uma mesma nota.
Abraços, agradecimentos e troca de elogios.
Já percebi que por aqui consigo me conectar com crianças e músicos.
Claro, são meus semelhantes.

banda na bresser

A volta no horário de pico é humilhante.
Como conseguimos aceitar isto?
Me foi dito para estudar muito e trabalhar muito, pois assim não ficaria sujeito ao transporte público,
a Saúde pública.
Mas tudo o que as pessoas que estão espremidas neste vagão fazem é trabalhar.
Trabalham muito.
Cada um aqui merecia espaço, respeito, conforto.
Dai dizem que tem muita gente no mundo, que é assim mesmo.
Dizem isso e saem em seus helicópteros.
Eles tem helicópteros porque trabalham demais.
Tem bons médicos a disposição e acesso a educação de verdade porque trabalham muito.
Mas espera.. As pessoas aqui neste vagão não fazem o mesmo dia e noite, noite e dia?
Volta a visão do formigueiro.
Tão clara.
Cristalina como a imagem da TV digital que você será obrigado a comprar.
Se quiser ver a novela.
Se quiser a notícia do jornal.
Umas boas centenas de milhões trabalham e trabalham e trabalham.
Enganadas por poucos, seguem construindo castelos em que nunca entrarão pela porta da frente.
Voltam para suas casas em condições humilhantes.

Que afastam a todos do caminho do Amor.
Como você vai sorrir para alguém que está ao seu lado se dentro de você existe o MEDO?
Medo de ter que ficar neste vagão para sempre.
Medo de não ter plano de Saúde e depender do assustador hospital público.
Medo de ser o personagem mal sucedido da novela.
Do metrô volto a lotação, é a última parte do meu trajeto.
Todos os lugares estão ocupados, mas estou disposto e vou em pé.
Agora Nina Simone canta esperançosa em meus ouvidos.
Metade dos passageiros olha para telas brilhantes.
A outra metade olha para baixo, dorme, evita estar ali em seu próprio corpo.

E eu?
Eu danço.
Agradeço a Deus, agradeço ao universo pela visão privilegiada que me deu nesta vida.
Batuco na barra da lotação que além de me impedir de cair, se torna minha bateria.
Ainda bem que tenho a Música,
Ainda bem que tenho a Leitura,
Ainda bem que tenho o Skate Meditação,

Eu danço e deixo meu barco navegar neste mar e em qualquer outro.
Tudo bem meu barco estar na água.
O que não pode é a água entrar no barco.

Ps.Combina com o texto e me deu vontade de começar esse blog: